Headache Medicine, v.3, n.4, p.198-235, Oct./Nov./Dec. 2012 215
Análise do tempo de profilaxia da migrânea
Raimundo P. Silva-Néto
1
, K.J. Almeida
1
, Marcelo Moraes Valença
2
1
Centro de Neurologia e Cefaleia do Piauí, Teresina, PI, Brasil
2
Universidade Federal de Pernambuco, Recife, PE, Brasil
Silva-Néto RP, Almeida KJ, Valença MM. Análise do tempo de profilaxia da migrânea.
Headache Medicine. 2012;3(4):211-3
INTRODUÇÃO
Atualmente, existe consenso sobre o tratamento
profilático da migrânea respaldado em evidências clínicas
e na experiência pessoal de quem o prescreve.
(1)
Para
diminuir a frequência e intensidade das crises, os medica-
mentos profiláticos são administrados, diariamente, por
meses ou anos.
(2)
Comumente, são utilizados bloque-
adores beta-adrenérgicos, antidepressivos tricíclicos,
antagonistas dos canais de cálcio, antagonistas da
serotonina e anti-epilépticos.
(1)
Apesar do conhecimento das medicações profilá-
ticas, ainda permanece a incerteza sobre a duração desse
tratamento.
(3)
Há divergência de condutas. Contudo, há
um estudo que preconiza a manutenção da profilaxia
por 8 a 12 meses após diminuição dos parâmetros de
SHORT COMMUNICATIONS
216 Headache Medicine, v.3, n.4, p.198-235, Oct./Nov./Dec. 2012
dor superior a 50%.
(4)
Por outro lado, há também
recomendação de se manter tal tratamento por, no mínimo,
seis meses após alcançar uma melhora da frequência e
intensidade das crises superior a 75%,
(1)
a qual é observada
através do diário da cefaleia e, a seguir, descontinuar
gradativamente. Porém, se houver recidiva, prolongar o
tratamento pelo tempo que for necessário, considerando
as limitações de cada medicação.
(1)
OBJETIVO
Determinar o tempo de maior eficácia para suspen-
são da profilaxia da migrânea após desaparecimento
da cefaleia.
MÉTODO
Foi um estudo prospectivo, com comparação de
grupos, em uma população de 1.600 pacientes migra-
nosos atendidos em uma clínica de cefaleia no período
de março de 2004 a março de 2007. Todos pre-
encheram os critérios diagnósticos da International
Classification of Headache Disorders - second edition;
usavam profilaxia estandardizada com atenolol, nortri-
ptilina e flunarizina e não apresentavam cefaleia por,
no mínimo, três meses.
Empregou-se amostra aleatória constituída de 50
pacientes, os quais foram distribuídos em dois grupos
iguais: grupo A manteve profilaxia por mais 12 meses, e
grupo B por mais 24 meses. Determinou-se a frequência
de crises de cefaleia antes da profilaxia e decorridos um,
dois e três anos após suspensão do tratamento, utilizando-
se o diário da cefaleia padronizado para este estudo e
previamente testado.
No seguimento foram definidas como variáveis de
estudo o tempo livre de cefaleia e o número de episódios
de recidiva de cefaleia por ano.
A análise estatística foi realizada pelos testes de
Kruskal-Wallis para diferença de médias e do qui-
quadrado com correção de Yates para prova de contin-
gência, ambos com nível de significância de 0,05.
O estudo foi aprovado por Comitê de Ética em Pes-
quisas e todos os pacientes assinaram o termo de
consentimento livre esclarecido.
RESULTADOS
Na Tabela 1 observam-se as distribuições por sexo,
idade, frequência inicial da cefaleia e seu tempo de desa-
parecimento, segundo grupos de profilaxia. Identificou-
se que os grupos A e B não diferiram significantemente
na fase terapêutica, embora o tempo médio de desa-
parecimento das crises tenha sido maior no grupo A que
no grupo B.
Constatou-se que 11 (44,0%) pacientes do grupo A
e 19 (76,0%) do grupo B permaneceram assintomáticos
(número de crises igual a zero), durante os três anos sem
profilaxia (Tabela 2).
SHORT COMMUNICATIONS
Headache Medicine, v.3, n.4, p.198-235, Oct./Nov./Dec. 2012 217
Em ambos os grupos, identificou-se tendência de
aumento da frequência de crises ao longo dos três
anos sem profilaxia, tendo o grupo B mantido uma
frequência média significantemente menor que o do
grupo A (Tabela 3).
Na Figura 1, observa-se o comportamento temporal
da frequência média de cefaleia em cada grupo de
profilaxia, identificando-se forte correlação do aumento
dessa frequência com o tempo, após suspensão da
profilaxia, mantendo o grupo B tendência de aumento
do número de dias igual a 0,5 por ano, menor que a do
grupo A que se iguala a 3,2 por ano.
CONCLUSÃO
O tempo de profilaxia da migrânea por 24 meses,
após desaparecimento da cefaleia, apresentou maior
eficácia.
REFERÊNCIAS
1. Comitê Ad Hoc da Sociedade Brasileira de Cefaleia. Reco-
mendações para o tratamento profilático da migrânea. Arq
Neuropsiquiatr. 2002;60(1):159-69.
2. Silberstein SD, Lipton RB, Goadsby PJ. Migraine: diagnosis and
treatment. In: Silberstein SD, Lipton RB, Goadsby PJ. Headache
in clinical practice. Oxford: Isis Medical Media 1998, chap. 6,
p. 61-90.
3. Dodick, D.W. Acute and prophylactic management of migraine.
Clin Cornerstone. 2001;4(3):36-52.
4. Dodick DW. Preventing migraine pharmacologically. Manag Care
Interface. 2004;17(Suppl D):14-7.
Figura 1 – Comportamento temporal da frequência média de cefaleia
por ano após suspensão da profilaxia em 50 pacientes com migrânea
xxx-xxx
SHORT COMMUNICATIONS