OPINIÃO PESSOAL

Be careful with the chronic daily headache!


Cuidado com a cefaleia crônica diária!

Paulo Sergio Faro Santos
Neurologista, Chefe do Setor de Cefaleia e Dor Orofacial, Departamento de Neurologia, Instituto de Neurologia de Curitiba

Correspondence
Paulo   Sergio  Faro Santos
dr.paulo.faro@gmail.com

 

Faro Santos PS. Cuidado com a cefaleia crônica diária! Headache Medicine. 2018;9(1):33-34

 

INTRODUÇÃO

     Muito se ouve sobre pacientes com cefaleia crônica diária (CCD) na rotina do neurologista. Nessa situação sempre me questiono se os profissionais entendem o termo a que se referem. CCD na verdade não é um diagnóstico, mas a presença de toda e qualquer cefaleia com frequência de pelo menos 15 dias no mês por no mínimo três meses, ou seja, é um termo genérico.

     Compreende-se a utilização da expressão CCD no período em que foi rotulada pela primeira vez, final da década de 1970 ou início da década de 1980, provavelmente pelo médico italiano Federigo Sicuteri.(1) Na época ainda não havia uma normatização diagnóstica para as cefaleias. A primeira edição da classificação internacional das cefaleias, ou International  Classification of Headache Disorders (ICHD) – termo mais utilizado, ocorreu apenas em 1988.(2) Atualmente utilizamos a terceira edição desta classificação que foi publicada neste ano (2018).(3)

     Para entendermos melhor, a ICHD nas suas três edições publicadas até o momento nunca utilizou o termo cefaleia crônica diária como diagnóstico nosológico.(2-4) Eis o cerne da questão, na rotina médica, o termo CCD está sendo utilizado com este sentido.

     Diante de um indivíduo que se enquadra nos critérios de CCD, o profissional deverá submetê-lo primeiramente a uma anamnese completa. Em regra geral, toda cefaleia crônica um dia foi episódica, desta maneira precisa-se descobrir o padrão da cefaleia previamente ao período de piora, a fim de auxiliar no diagnóstico da atual cefaleia cronificada. Além disso, deve-se buscar por sinais de alerta na história, no exame físico, neurológico e cefaliátrico, no intuito de definir a necessidade de exames complementares, se houver suspeita de cefaleia secundária.(5) Após exclusão de causas secundárias, as CCDs podem ser divididas em cefaleias de curta duração e de longa duração, de acordo com suas manifestações clínicas (Tabela 1).(6)

     Um estudo populacional americano revelou que, apesar de atualmente termos disponível a ICHD, pouco mais da metade dos indivíduos que possuíam o diagnóstico de migrânea foram erroneamente diagnosticados com cefaleia tipo tensional, cefaleia atribuída à sinusopatia e cefaleia em salvas.(7)

     O diagnóstico incorreto levará o paciente a fazer uso de medicações inadequadas para sua cefaleia e, por conseguinte, acarretará em persistência e até agravamento dos seus sintomas. Se pensarmos que em casos de hemicrânia contínua e hemicrânia paroxística crônica o tratamento mais indicado é a indometacina, na cefaleia tipo tensional crônica são os antidepressivos e para indivíduos com migrânea crônica os anticonvulsivantes, a toxina botulínica e, mais recentemente, os anticorpos monoclonais contra o peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP) ou seu receptor, entenderemos a importância de não se utilizar o termo CCD, mas sim buscar o diagnóstico.

     Sabe-se que as cefaleias são um problema de saúde pública e que implicam custos diretos e indiretos ao indivíduo e ao sistema de saúde público e/ou privado. O custo indireto ocorre principalmente pelo absenteísmo, por exemplo, a migrânea é a terceira principal causa de incapacidade em pessoas abaixo dos 50 anos e a cefaleia atribuída ao uso excessivo medicamentoso está dentre as vinte doenças mais incapacitantes. Em relação aos custos diretos, estão inclusos os custos das medicações e a solicitação desnecessária de exames complementares, principalmente de neuroimagem.(8)

     Diante deste complexo cenário, recomenda-se que cada vez mais o neurologista se familiarize com os critérios diagnósticos das principais cefaleias primárias e lembre-se de consultar a ICHD em suspeita de cefaleias menos comuns. Assim, o diagnóstico será feito de maneira assertiva, os exames complementares, se necessários, não serão realizados aleatoriamente e o tratamento será direcionado, de maneira a reduzir a incapacidade do paciente.

 

REFERÊNCIAS
1. Sjaastad O. "Chronic daily headache" ("Cefalea crônica quotidiana"). Cephalalgia. 1985; 5 Suppl 2:191-3.
2. Classification and diagnostic criteria for headache disorders, cranial neuralgias and facial pain. Headache Classification Committee of the International Headache Society. Cephalalgia. 1988;8 (Suppl 7):1-96.
3. Headache Classification Committee of the International Headache Society. The International Classification of Headache Disorders (3rd edition). Cephalalgia. 2018; 38 (3rd edition): 1-211.
4. Headache Classification Subcommittee of the International Headache Society. The International Classification of Headache Disorders: 2nd edition. Cephalalgia. 2004;24 Suppl 1:9-160.
5. Sheeler RD, Garza I, Vargas BB, O'Neil AE. Chronic Daily Headache: Ten Steps for Primary Care Providers to Regain Control. Headache. 2016. 56(10):1675-1684.
6. Halker RB, Hastriter EV, Dodick DW. Chronic Daily Headache: An Evidence-Based and Systematic Approach to a Challenging Problem. Neurology® Clinical Practice 2011;76 (Suppl2):S37-S43.
7. Lipton RB, Diamond S, Reed M, Diamond ML, Stewart WF. Migraine diagnosis and treatment: results from the American Migraine Study II. Headache. 2001; 41: 638-645.
8. Mennini FS, Gitto L. The costs of headache disorders. J Headache Pain. 2015; 16(Suppl 1): A3.